Entre costuras e crenças: Aline Bispo em ‘A Linha dá o Ponto, a Linha dá o Caminho’

Exposição individual da artista Aline Bispo, integrando a programação do “Novembro Negro: um convite à reflexão sobre equidade racial”, promovida pela Sedac.

A Secretaria de Estado da Cultura (Sedac), por meio do Museu de Arte Contemporânea do RS (MACRS), inaugurou no dia 23 de novembro, na Galeria Sotero Cosme, 6º andar da Casa de Cultura Mario Quintana, a exposição “A Linha dá o Ponto, a Linha dá o Caminho”, da artista Aline Bispo, com curadoria de Alexandre Bispo.

 

A mostra  é o resultado dos mais recentes desdobramentos de pesquisa artística de Aline Bispo. Com curadoria de Alexandre Bispo, essa é a primeira exposição individual no âmbito institucional da artista e apresenta trabalhos desenvolvidos durante um processo de investigação aprofundado em diversos lugares do Brasil. Nesta jornada ela mergulhou profundamente em temáticas relacionadas à identidade brasileira, observando questões que tangenciam construções como a miscigenação, o gênero e o sincretismo como forma de encontro e embate nas esferas religiosa e cultural. A mostra no Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (MACRS), apresenta trabalhos inéditos entre pinturas, esculturas e instalação, originados a partir dessa investigação.

 

Segundo Aline, sua primeira motivação para esse projeto foi o desejo de dar continuidade a sua pesquisa que parte do olhar para si colocando em prática uma metodologia de pesquisa pautada no conceito de corpo-território. Nesse processo o axé é o ponto de encontro capaz de expandir a autocompreensão e a forma como a artista se vê no mundo. Para ela vivenciar e registrar essas festividades é se conectar com esses pontos de encontro que passam pela construção brasileira e suas diversas influências e voltar para si, se reconhecendo também como resultado dessas construções.

 

Durante o período de um ano, Aline embarcou em viagens para documentar e participar de diversas festividades religiosas pelo país. Sua jornada começou na cidade de Aparecida, no interior de São Paulo, onde participou da festa de Nossa Senhora Aparecida. Em Salvador, a artista se envolveu na celebração de Iemanjá, participando dos diversos cultos que fazem parte dessa festividade. Em Porto Alegre, vivenciou o Bará do Mercado, um patrimônio histórico e cultural da cidade. Em Cavalcante, Goiás, Aline participou da Caçada da Rainha, uma tradição centenária que envolve folias, cortejos, batuques e missas. Ela retornou à Bahia, no município de Cachoeira, para participar da Festa da Boa Morte, uma celebração que envolve o sincretismo entre o catolicismo, o candomblé e a conexão com mães de vários cultos que se unem à Irmandade da Boa Morte. A jornada culminou na Festa de Feira de Baianos, um culto aos encantados que ocorre no terreiro ao qual a artista pertence, localizado em Itapecerica da Serra, São Paulo.

 

A artista apresenta uma exposição fascinante que se desdobra em múltiplas formas de expressão. A série de seis pinturas inéditas destaca-se por ser a primeira vez em que a artista incorpora aplicações em ouro, criando imagens únicas. Essas obras de arte foram inspiradas por cenas e personagens que Aline encontrou durante suas viagens, capturando momentos significativos. Além das pinturas, a exposição também abriga sua primeira instalação: um altar composto por 10 figuras de gesso, cada uma delas cuidadosamente envolta em tecido e fios de contas. O altar inclui outros objetos com o propósito de conferir uma roupagem renovada a elementos que, ao longo dos anos, foram usados pelas religiões de matrizes africanas, incorporando símbolos católicos e cristãos para expressar sua fé. A intenção aqui é resgatar essa tradição, não necessariamente do ponto de vista ritualístico, mas como um testemunho histórico. Cada figura no altar é adornada com fios de contas, alguns envolvendo todo o corpo, enquanto outros se concentram apenas na cabeça, evocando rituais populares em que as expressões comuns incluem a raspagem da cabeça em homenagem aos orixás.

 

A necessidade de Aline Bispo de visitar e interagir com uma variedade de espaços físicos, espirituais e festivos surge da busca por entender os sincretismos e hibridismos culturais. A exposição abraça festividades locais, casas, aldeias e terreiros como locais de pesquisa, reconhecendo suas contribuições para as múltiplas facetas da brasilidade. Essa exploração é concebida como uma extensão do próprio corpo-território de Aline e um meio de documentar e dar vida às histórias brasileiras por meio de encontros, trabalhos manuais, expressões de fé, arranjos, flores, fitas, tecidos e memórias.

 

A programação “Novembro Negro: um convite à reflexão sobre equidade racial”, promovida pela Sedac, por meio de suas instituições culturais, tem por objetivo celebrar o Dia da Consciência Negra (20 de novembro) e contará com atividades que retratam a luta do povo preto pela igualdade de direitos e oportunidades, o combate à discriminação e à desigualdade, e enaltecem o trabalho de presernalidades e artistas negros na disseminação da arte e da cultura.

 

Sobre a artista:

Aline Bispo, São Paulo, SP, 1989 – é multiartista visual, ilustradora, curadora independente –

que atualmente atua na curadoria do Instituto Ibirapitanga e também é colunista do Nós Mulheres da Periferia. Em suas produções investiga temáticas que cruzam a miscigenação brasileira, gênero, sincretismos religiosos e étnicos. Faz parte do time de artistas com obras expostas e/ou presentes nos acervos MASP, IMS Paulista, Pinacoteca de São Paulo, SESC, Museu Afro Brasil, Itaú Cultural, MAC-RS e Galeria Luis Maluf. Atualmente possui três empenas pintadas no Parque Minhocão, em São Paulo, sendo a primeira “Salve, Lélia!”, em uma homenagem a Lélia Gonzalez. Aline também é a ilustradora da capa de livros como livro Torto Arado e toda a atual trilogia, recém lançada de Itamar Vieira Junior, é co-autora de Serena Finitude ao lado de Anelis Assumpção e ilustra semanalmente a coluna de Djamila Ribeiro para a Folha de São Paulo. Multidisciplinar, adentrou também o espaço da moda, lançando sua primeira coleção Belezas Brasileiras Hering, criou as estampas que ocuparam a passarela do SPFW, na coleção Fartura, de Naya Violeta e em 2023 inaugurou sua coluna mensal na plataforma Nós Mulheres da Periferia.

 

Sobre o curador:

Alexandre Bispo é (São Paulo) é antropólogo, crítico de artes visuais, curador. Pesquisa práticas de memória com foco em fotografia amadora, fotografia de família, cultura visual e arquivos pessoais; artes visuais com ênfase em poéticas afro-brasileiras; antropologia urbana com ênfase na história e memória paulistanas. CURADOR ARTÍSTICO entre outras, das exposições Margens de 22: Presenças Populares (2022; SESC Bertioga: 70 anos à Beira Mar (Sesc 2018/19), Em três tempos: viagem, memória e água (TCU Brasília 2019), Medo, fascínio e repressão na Missão de Pesquisas Folclóricas – 1938-2015 (CCSP 2015-16); Gabinete Clóvis Moura (FESPSP 2011), Negro Imaginário (Espaço Maquinaria 2008), Vontade de saber: erotismo (Espaço dos Sátiros 2008). CURADOR EDUCATIVO das exposições: Ounjé: Alimento dos orixás Sesc 2019; Corpo a Corpo: a disputa das imagens da fotografia à transmissão ao vivo Sesc 2019; Bienal Naïfs do Brasil Sesc 2018; Todo Poder ao povo: Emory Douglas e os Panteras Negras Sesc 2017.

Membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte ABCA; Pesquisador do Coletivo ASA – Artes, Saberes, Antropologia; Membro do Núcleo de Estudos Afro brasileiros da UFSB. CO-AUTOR de: Mulheres no ensino de arte no Brasil (2023); Artes, saberes, antropologia (2021); Arte contemporânea 2000-2020 (2021); Paulo Nazareth: Melee (2021); Mulheres fotógrafas, mulheres fotografadas: Fotografia e gênero na América Latina (2021); Anais da LXI Jornada da Associação Brasileira de Críticos de Arte, Itabuna, BA, 2020; Cidades sul-americanas como arenas culturais (2019); “Tem que manter isso aí, viu? “(2019); Bienal Naïfs do Brasil: Daquilo que escapa (2018); Metrópole: experiência paulistana. Pinacoteca do Estado de São Paulo (2017); Vida e grafias: narrativas antropológicas, entre biografia e etnografia (2015). Tem textos publicados nas revistas: Revista E; ZUM; SP-Arte; Pivô; Contemporary And, Omenelick 2º Ato; Art Bazaar. 

 

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SERVIÇO

Exposição “A Linha dá o Ponto, a Linha dá o Caminho”, de Aline Bispo
Abertura: 23 de novembro
Local: MACRS – Galeria Sotero Cosme, 6º andar da Casa de Cultura Mario Quintana (Rua dos Andradas, 736 – Centro Histórico – Porto Alegre/RS)
Visitação: de 24 de novembro de 2023 a 03 de março de 2024. De terça-feira a domingo, das 10h às 19h

Entrada gratuita

 

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